Contos e Versos Próprios
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Seleção de contos e poemas de Bianca Wandt 2007

 

Conto bem guardado


Depois da Ave-Maria, às seis e meia, hora do jantar servido para todos. À mesa, ninguém inventava de implicar, a mãe ficou agradecida pelo silêncio daquela noite, também em silêncio, submersa.

Ninguém percebeu nela o que desmoronava, retalhando, não houve pergunta nem dedo de prosa, a mãe teve para si quase uma hora inteira calada, jantando.

Entendeu que o amor não segue expectativas. Seu mistério é puro e absoluto. Perene, desconhece apesares.

No tempo ela lavou as horas dos dias, secou, passou, dobrou, pendurou e em nenhum deles a mãe não pensou nele. Ele teve mesmo razão, quando disse para a mãe : _ Quando é assim, não existe mais essa história de ser um sozinho. Avisou que diria só uma vez.

Ele morreu bem velho, lá em Londres, tempos depois do pai. A mãe também morreu bem velha, aqui no interior de Minas, uns anos depois dele.

Os filhos abriram (tão amareladas!) cartas guardadas em diários caprichosos, as páginas se soltando,fartas do que há sobre fazer o necessário, nesta vida, para se ser feliz. Contaram.

De que adiantaria falar? Melhor morrer inédito o poeta que deu de amar assim para dentro e escreve para que alguém o leia depois, e o compreenda depois, bem depois daquela hora em que, finalmente, se vai em paz.

 

Intro

No ano de 1961 houve um incêndio criminoso no circo de Niterói. Esse acontecimento habita moradores da cidade até os dias de hoje.

Houve um profeta após a tragédia, Gentileza. Obediente às vozes internas, fez o que compreendeu como sendo um chamado de Deus: muita gente não entendeu, mas ele, sempre. O profeta cuidou dos que sobraram, gentilmente. O profeta também coloriu a cidade, com AMORRR.

Conheci pessoalmente alguns sobreviventes do incêndio numa clínica de reabilitação, em Niterói, onde trabalhei. Eram ex-pacientes que, após longos anos de tratamento, foram integrados ao corpo de funcionários da instituição. Eu ouvi a história. E quem me contou já nem ouvia muito bem...

Gosto de escrever de madrugada. Nessas horas sozinhas, me sinto mais próxima do meu inconsciente. O circo que também há em mim, flameja em muitos textos que escrevo.

Consciente da motivação inconsciente que me trás, à escrita, imagens de respeitáveis públicos, tendas, palhaços-querubins-violinistas, bailarinas, mágicos, trapezistas, animais domados, liberto-as, todas, em textos e poemas, mescladas tanto às questões herméticas, particulares, quanto às mais democráticas, universais e, nesse caso, disponho-as para quem quiser ler.

CIRCO é mais um de meus contos curtos. Um conto rápido e frágil, feito chama sobre plástico.


Circo
Da fragilidade das relações e devastação das inverdades

Primeiro as luzes da ribalta, depois, os tambores e o perfume de tudo isso. Vovós com netinhos, mães e pais, mães-solteiras, namorados, gente casada, gente se separando, gente desamando, gente vivendo, gente morrendo, gente sofrendo, gente adorando, algodão-doce, pipoca e animais treinadíssimos.

Acima de tudo, a tenda. E a tenda é inflamável à mínima fagulha.

O palhaço se apresenta com aquela lágrima fingida na pintura do rosto que não é. Alguém da platéia fixa os olhos no centro da lágrima, parece. Não há dedo em riste, mas, lábios, entreabertos.

O ilusionista, fantástico esgrimista, escolhe esse mesmo palhaço dentre outros artistas, pois sabe muito bem que, esse, especificamente, esse, não sucumbiria facilmente às espadas, apenas desapareceria, no tempo certo, ao comando secreto, são e salvo, lá pra dentro, no velho refúgio armado de um esconderijo estratégico.

Para alívio do público que, inteiro, suspira, pois ainda desconfia apenas, não é. Alguém da platéia pressente, sabe. Levanta-se imediatamente após os aplausos. Os pares de pés buscam sua maior velocidade para voltar para casa. Todos levam em si um sentimento esquisito após o espetáculo de quase duas horas.

_ O que foi mesmo que aconteceu com a gente?

 

 

 

Revue des illusions - Pour la nuit


E aí você veio falar que não vai trazer música nenhuma para esta cidade e muito menos para mim (sic). Na seqüência da conversa, pareceu ser constrangimento por causa da Theodora, que se existisse na Quadrilha de Drummond, teria tão pouco a ver com a história quanto o próprio J. Pinto Fernandes.

Só que você veio falar isso, com uma boca amarga e sozinha, bem na hora que eu pensava num vestido que comprei de propósito e nunca usei.

Um vestido para a noite, longo, veludo preto, macio, com um decote daqueles que só podem as que têm peito e um corte discretamente marcante para a cintura de quem tem o jogo, quadril largo e pernas longas. Um vestido que revela. Mas não mostra. Um vestido elegantemente encharcado de segundas intenções.

Para a noite, um ritual diurno. Longuíssimo. Mãos, pés, cabelos, cremes, provas, escolhas definitivas renovadas, pérolas, prata ou strass, esse ou aquele perfume das Horas Rubras, batom e a dedicada persistência de que não vou. Não vou. Eu não vou.

Pronta para não ir, imagino meu corpo ido. Como seria estar onde não
estaria. Como agiria. O que veria e o que sentiria. E, essencialmente, o que eu causaria. E, depois, o que aconteceria.

A massa homogênea de aplausos. Muitos olhos. E eu, heterogênea, sabendo até onde meus lábios já se atreveram. Eu tremeria. Me lembraria do que não esqueceria. E mais ainda me atreveria.

Iria.

 

 

 

Respostas trágicas ao poeta comediante

Chegou à noite, que começava a cair sobre Pompéia, mas pôde ainda ver muito bem os contornos do Vesúvio contra o céu alaranjado, deu até para tirar uma foto, que lhe comprovasse sentimentos para além da sua pequenez face ao colosso natural, em toda aquela placidez altiva, que só aquilo que , há muito, já fora monstruoso, hoje, poderia representar bem e convencer os pequeninos do que realmente é e foi e pôde, assim como, também, com a mesma foto, pudesse comprovar o aviso do bisavô Gaetano:

"Giusephina, o Princesa Mafalda está partindo, olhe agora para trás, porque você verá o Vesúvio pela última vez na sua vida." E foi assim mesmo. Judiação, Madonna mia…

Só, no coração, trouxeram o Vesúvio ancestral para o Brasil. E ele habitou o sangue do avô, o do pai e o seu. Cruz,Credo, Ave-Maria.

Do outro lado da estrada, o grande muro da cidade estranha, que encerra as pessoas tornadas meros espectros empedernidos e acinzentados do que foram, do que viveram, do que sentiram. O Vesúvio, inimigo do mundo imediato, para provocar Deus, distante, um dia fez assim. Desperto, imprevisível, jorrou, furioso, lava e cinzas. Derramou-se, então, o destino sufocado em forma de silêncio sepulcral sobre a cidade inteira. Não sobrou ninguém.

Tudo em Pompéia é belo e mórbido num só golpe, sentiu. Mas, bem no meio, encontrou a casa do poeta, no meio, porque divina é a sua comédia, assim, como a de toda a raça humana. É o que Dante nos oferece em seu inferno; pois bem, melhor desfrutar. E olhou o poeta do jeito mais aflito que poderia. Chorava e ria. E falou alto com o eco. O eco era cínico. Devolvia a altura.

Teria mesmo sido humano o poeta? Teria sido ele capaz de sofrer? Teria amado alguma mulher, de verdade, o poeta? Teria ele se fartado em orgias e banquetes ou, resignado, teria ele se recolhido comedidamente aos míseros grãos? Seria o poeta mesmo cordial? Seria hipócrita? Quantas vezes teria sido violentamente abandonado por tudo em que acreditava? Teria ele escrito cartas de amor? Para quem? Ou tudo, tudo mesmo nele e acerca, seria como o que agora o cerca, como o que cerca e habita a sua casa e o que é, dentro?

Trágicas respostas teria o poeta, que para não ouví-las, silenciou seu riso arrancando-lhe um outro, ao lhe dar as costas, despido de toda graça, voltando à sua mortalha ideal. Poeira e pó. Pedra de cinzas. E só.


 

 

 

A hora do Querubim
Circo Roncalli

Toda noite igual
em seu espetáculo
de contorcer o sol
até quedar-se frouxo
lânguido
pigmentado de escuro
no silêncio total.

Não há mais ninguém
para me ouvir
além de mim e o que
deixo no espelho.

Umedeço um lenço
e
vagarosamente
despeço
quem coloriu meu rosto.

Recolho-me as asas
meu instrumento rouco
inspiro notas que expiro
respiro num suspiro
e
na volta
pela rua vazia
assovio
a última melodia.



 

 

Late reading

A madrugada é
o balanço das minhas
horas repletas de dia.

O que há ao redor
repousa
cala
e se transforma.

Imersa desilusão em mim
me iludo ainda.

Busco nas formas
alteradas
um outro tipo de graça
divinamente quieta
nua
completamente
deserta.

 

Se fosse assim
Para o meu amigo e poeta Carlos Irineu da Costa

E se esse céu
fosse o mar
poetas escreveriam em margens
mais óbvias
agarrariam estrelas com a mão
e fariam carrosséis com cavalos marinhos.

E se esse mar
fosse o céu
poetas inverteriam imagens
mais claras
romperiam o escuro com a mão
e amanheceriam astros submersos.

 

Sensatez

Não tenho mais meus pedaços em cadernos.
Tudo que escrevo
lanço às paredes do quarto.
Se estar presa é o que me resta
prefiro que seja
então
entre quatro poemas.

 

Traspasse

Com precisão
feito golpe de arpão
aquele ano
traspassado
pela paixão.

Na dor forjado
passado
verdade lavrada
fato consumado.

Silenciosa simbologia
da morte consciente
gera na vida poesia
fecunda meu texto:
presente.

 

Da cegueira

Adormeceu seus olhos uma noite eterna.
Certa pisa firme em terra inóspita
atravessa bíblica
o deserto da dúvida:

Esther
descoberta.

Sem oásis
nem luz de estrela
que lhe guie
presságio no vento
apaga todas as pegadas.

Segue cega
contínua
a vida árida.

O útero é seco
desértica morte
vívida a sede
de vê-lo de novo.

 

 

in lingua

um travo amargo
me adormece a língua
engulo sob protesto
visceral
o fermento em pó
desce arranhando
desanda em inspiração e
breve
até aqui
asfixiada
morrerei portuguesa afogada
na língua úmida
de saudade
minha nau desancorada.

 

Da correspondência literária

I

Carta


A musa
essa intrusa
moça invisível
invade
sem compostura
o pensamento
indizível.

Sou poeta
moça intrusa.
Tenha compaixão
minha musa.

 

II

Braile


Esse desvendar táctil
da sua identidade
seu nome
sua marca
em um livro inteiro
ao alcance
dos meus dedos.

 

III

Telefone


Mudas verdades.

Dispersos
fingem-se segredos
na trama fina
das palavras escritas
que nos dizem.

E calam.

 

 

Derramando

Escrevo só para parar de sofrer.
Mas não sei fazer não.
Escrevo para me livrar da emoção.
Para o outro que lê
transplanto a flor de tudo
que me inundou tanto.
Mais leve e reconfortada
livre pelo sim pelo não
me ponho à espera
à espreita
do próximo furacão.

 

Assombração

Tudo passa por aqui.


Até uma espécie de você
que deixa na casa a face
em todos os espelhos.

E eu que não sei fazer
pulsos atados
escrevo meu amor
só pra parar de sofrer
trincando dentes
arrastando correntes.

Por tua causa
pela casa
na tua casa
por tua culpa?

Mea culpa
concepta.
Lacrima
concreta.

 

 

Antagonismo complementar

 

 

Têmpera

Posso tudo o que eu quiser
brinco de alterar rotas
me reviro volto e venho
outra espécie de mulher.

Longe longe noutro mundo
orvalho
umidade serena
de lá do fundo profundo
olho meu nome de berço
e muda no mundo
mudo
para Maria Madalena
ou quem sabe
noutra hora
chama obscena
Helena.

 

Madrugada

Está farta.


Grávida das palavras
enxertadas nas trevas
de todos os significados
possíveis
para cada um
impossível.

Plena fartura:
ventre,
criação,
criatura.

A pena range sobre o papel.

Rebenta o poema
que aguava aqui dentro.

 

das coisas de dentro

enquanto isso mordo os lábios.

engolida
há alguém comigo
lá dentro.

a saudade é um tubarão
com uma boca imensa
cheia de dentes.

não consegui fazer dela
meu bicho domesticado.

 

 

Legado Hannemann

Solidária conto,
mas não me sirvo
de amor em pílulas.

Toma,
engole essa.

 

 

 


Da espera por respostas

 

Pérolas são

duros segredos

sepultados

dentro das conchas.

 

Enigmático futuro

talvez num colar

o longo fio de contas

madrepérola

repouso longo

das incontáveis verdades

bem rente ao peito.

 

 

 

Seleção de poemas de Bianca Wandt 2006

 

A inspiração que nem era

Confiar apenas na vida
e naquilo que sopra no ouvido
vindo de não sei onde.

Conspirar com Deus
para acordar o homem capaz
de transformar mulher
em texto
em tela
em notas
e arruinar de vez
com a paz
que não gosto de ter.

 

Arremesso

Tudo é de pedra.
A minha verdade
a sua cidade
a minha ilha.

Até areia
é pedra fina
assim
de propósito
fina.

A minha mão
que joga
ao invés do vento
que sopra
reconhece na sua fronte
olhos encegueirados
ao arremesso de escombros
em delicada forma de pó.

 

 

Fim do mundo

A tempestade veio
e molhou a areia
onde a gente catava as conchas.

O que era branco
ficou cinza
e a beleza
tornou-se inválida.

 

Salut. À tout à l'heure

Ele estilhacou a mulher do espelho
que precisamente
com o lápis- batom
bem afiado
cirurgicamente
contorna os lábios
de Burgundy.

Desenha bem
ressalta bem
o que ele vai ver
vai querer
e nunca mais vai ter.

A mulher refletida em cacos. Estilhaços.
Nad
a mais existindo aos pedaços. Nada.

 

 

Très Brut

É a água que lava
e estanca
essa sua cara
de Marchand
após a barba.

 

Lavande de Provence

Pela minha janela aberta noite e dia
o vento veio inundar
meus lencóis
a água na pele
as roupas do armário
e uma vontade de amar.

 

Déjà Vu

Desejarás sempre
arderá sempre muito
o que finge não ter visto
porque já viu, virou o rosto,
foi,
morreu de medo.
Déjà vu. Woo doo.

 

 

Oublié

É mais bonito dizer
oublié
se há coisa que dói
pra esquecer.

 

La bohème du Tertre
sobre Juarez Machado e aquela casa

Não vou lá buscar
meu retrato a lápis
feito assim no tapa
preto e branco
sem mais nem menos
pegando a mim de passagem
me parando pra sorrir.

Eu nao vou lá para beber
não vou lá para esquecer
e nem para me afogar em sofrer.

Eu vou lá rondar a janela
com vista para as madalenas nuas
afrescas num teto lindo.

Eu vou lá para olhar de longe
lá do outro lado da rua
um último andar raríssimo
todo vidraça
um pouco asa
onde se dorme e se ama e se come
logo abaixo das estrelas.

Eu vou lá buscar os relances
do que não posso ver de perto.

Porque não se deve aproximar de sonhos:
uma questão de princípios.

 

 



 

Seguindo o sol de um poeta inédito

O sol,
fraquinho,opaco,febril,
lançou sobre mim
um pontinho dourado
que por onde eu ia
vagalumeando
tontinho,
devagarinho,
me seguia ...

 

 

 

Miau

Com língua serena,
dou lambidas infinitas na minha cria.
Com a boca inteira,
saliente, com a língua
no homem que é meu
acaricio a pele, a alma,
e cravo os dentes.

Gênesis.
Erupção.
Leoa,
de escorpião.

 

 

Paradiesvogel (für Rachel Corrêa)

Du hast einen Vogel.
Du bist selber einer,
Aber vom Paradies.

Du spinnst,
Aber bunt ist
Was du spinnst.

Du singst
Aber das reicht dir nicht

Du tanzt
Wenn du fliegst!

Du baust Nester
Für dich selbst,
Für uns alle.

Du spielst
Mit dir,
Mit Kindern,

Mit Münder,
Mit Bildern,
Mit Perlen,
Mit Flügeln,
Mit uns.

Du bist schwer zu fangen!
Du bist leicht zu verstehen,

wenn man will.

Noch wach
Andy Warhol träumt von dir.

Du bist eben ein Vogel.
Du hast wirklich einen
Aber
-----------
Vom Paradies.

Pássaro do Paraíso (para Rachel Corrêa)


Você é doida.

Você é um pássaro,
só que do Paraíso.

Doida,você fia
mas é colorido
o que você fia.

Você canta
mas isso não te basta


Você dança
quando voa!

Você constrói ninhos
para você mesma,
para todos nós.

Você brinca
com você,
com crianças,
com bocas,
com imagens,
com contas,
com asas,
com a gente.

Você é difícil de se aprisionar!
Você é fácil de entender,
quando se quer.

Ainda acordado
Andy Warhol sonha contigo.

Você é mesmo um pássaro.

Você realmente é doida

que é do Paraíso.

 

 

 


Midas

Juntar tudo o que não me serve
o que não combina
o que não me diz nada
o que não presta.

Transformar aos toques
o coisa nenhuma de tudo
em algo novo
que me caiba
harmonioso
significativo
e útil
elaborado no torno
da oficina das coisas
que são mesmo minhas.

 

 

 

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